John Owen e a subserviência do reino comum dos homens

O teólogo dos Dois Reinos deve se preocupar com a moralização da cultura porque existe uma realidade e um sistema ético. John Owen, em dois tratados, “O Reino de Cristo e o Poder do Magistrado Civil” e “A vantagem do Reino de Cristo”, afirma que Jesus é rei sobre tudo. Não obstante, existem duas administrações da realidade, ou, dois reinos que subsistem na mesma realidade. Diz Ele:

Were not those kings and kingdoms also of his setting up, that it is said, In their days he shall set up one of his own? Yea, doubtless; “He changeth the times and the seasons; he removeth kings, and setteth up kings,” chapter 2:21. – The Advantage of The Kingdom of Christ, v8, p315-339

Dizemos existir uma igreja em duas ordens (modos de administração): 1) igreja visível e 2) igreja invisível. Não se afirma, entretanto, que existem duas realidades; ou, duas igrejas. Afirmo, como batista, que a igreja local é a manifestação visível da igreja invisível. Logo, uma realidade não exclui dois modos de manifestação da realidade.

Não há dualidade ontológica, mas dualidade administrativa de uma realidade. Este é o princípio da unidade na diversidade e diversidade na unidade. Distinguimos entre: 1) ordem da criação; 2) ordem da redenção. A primeira administrada com base no Pacto de Obras e, posteriormente, preservada pelo Pacto da Criação (Noé); outra, administrada com base no Pacto de Graça. A criação (reino comum) é subserviente a redenção (reino espiritual). Veja o que Owen diz:

“(3.) That the civil powers of the world, after fearful shaking and desolations, shall be disposed of into a useful subserviency to the interest, power, and kingdom of Jesus Christ. Hence they are said to be his kingdoms, Revelation 11:15; that is, to be disposed of for the behoof of his interest, rule, and dominion.” – Christ’s Kingdom and The Magistrate’s Power, v8, p367-400

Todos reconhecerão Jesus como Rei Supremo, mas isto não significa que existe uma realidade e uma administração da realidade.

Of this you have plentiful promises, Isaiah 60, and elsewhere. When the nations are broken in opposition to Zion, their gain must be consecrated to the Lord, and their substance to the Lord of the whole earth,  Micah 4:13. Even judges and rulers, as such, must kiss the Son, and own his scepter, and advance his ways. Some think, if you were well settled, you ought not in any thing, as rulers of the nations, to put forth your power for the interest of Christ: the good Lord keep your hearts from that apprehension!!” – Christ’s Kingdom and The Magistrate’s Power, v8, p367-400

O reino espiritual teve início distinto do reino comum. O primeiro avança sobre o segundo a fim de que o comum aja de modo subserviente ao reino espiritual. Sabemos, também, que o reino redentivo avança a medida que pecadores recebem o selo do Espírito Santo, não quando nos envolvemos culturalmente. Não podemos confundir a função de subserviência com a verdadeira causa do avanço real de Cristo, a pregação verbal do evangelho. Ele foi iniciado em Jerusalém, após a morte de João Batista, em seguida se expandiu por toda Judeia e Samaria; e até aos confins da terra At 1.8.

Daniel Merrill apresentou seis indicativos da gênese do reino espiritual:

1) O reino não havia sido inaugurado até o momento da profecia de Daniel. A profecia está 1200 anos depois de Abraão. Além disso, os reinos não serão suplantados pelo reino do céu, mas serão despedaçados, segundo a profecia.

2) João Batista viria a fim de preparar o caminho para o senhor. O reino de Deus estava próximo na época de João Batista, porém, ainda não estabelecido. Estava a porta.

3) No início do ministério, nosso Senhor ensinou que “o reino de Deus está próximo”. O reino ainda não havia sido estabelecido.

4) Após João ser preso e decapitado, Jesus reuniu os doze discípulos e os enviou para proclamar a mensagem do reino. Neste momento a violência dos judeus cresceu e tomou forma. O modo de agir foi sistematizado e tornou-se padrão até os dias de hoje.

5) Jesus ordenou seus discípulos que não entrassem nas casas dos samaritanos, mas que fossem às ovelhas perdidas de Israel dizendo: “o reino do céu chegou”. Mt 11.12 revela, portanto, como a sistematização contra o reino se iniciou. Ou seja, a partir do momento em que o caminho foi preparado para o reino, a resistência se organizou.

6) A violência do reino dos homens contra o reino de Deus é o indicativo das gênesis do reino de Deus.

John Owen confirma esta posição dizendo:

Look, what kingdom soever the Lord Christ will advance in the world, and exercise amongst his holy ones, the beginning of it must be with the Jews; they are to be “caput imperii.” The head and seat of this empire must be amongst them; these are the “saints of the Most High,” mentioned by Daniel – Christ’s Kingdom and The Magistrate’s Power, v8, p367-400

Nosso envolvimento cultural, portanto, visa diminuir a antítese entre os reinos para que a mensagem evangélica se propague com menos resistência externa. Quanto menor a antítese, mais próximo o reino comum dos homens estará de sua tarefa servil.

This is a perpetual antithesis and opposition that is put between the kingdoms of the world and the kingdom of Christ, — that they rise out of the strivings of the winds upon the sea; he comes with the clouds of heaven; — they are brought in by commotions, tumults, wars, desolations (and so shall all the shakings of the nations be, to punish them for their old opposition, and to translate them into a subserviency to his interest); the coming in of the kingdom of Christ shall not be by the arm of flesh, nor shall it be the product of the strifes and contests of men which are in the world, — it is not to be done by might or power, but by the Spirit of the Lord of hosts, Zechariah 4:6. – Christ’s Kingdom and The Magistrate’s Power, v8, p367-400

O embate contra as perversões culturais externas (ou, nossa luta pela moralização da cultura) não pretende redimir o reino comum (no sentido de levá-lo ao ideal pré-queda), mas leva-lo ao propósito peculiar externo e estabelecido pós-lapso: ser um reino subserviente ao espiritual. Foi para isso que Deus preservou o mundo após a queda de Adão e é para isso que não podemos ignorar as regras morais externas no reino comum dos homens.

Deus entregou a Aliança com Noé para cumprir as promessas de Gênesis 3:15. O Pacto com Noé foi subserviente ao Pacto de Graça. Ele preserva a ordem criada e restringe o mal.

There are great and mighty works in hand in this nation; tyrants are punished, — the jaws of oppressors are broken, — bloody, revengeful persecutors disappointed, — and, we hope, governors set up that may be “just, ruling in the fear of God, that they may be as the light of the morning,” etc., 2 Samuel 23:3,4. The hand of the Lord hath been wonderfully exalted in all these things; but yet, should we rest in them, should they not be brought into an immediate subserviency to the kingdom of the Lord Jesus, — the Lord will quickly distinguish between them and his own peculiar design, and say, In the days of these changes I will do so and so; — speak of them as if he had nothing to do with them. The carrying on of the interest of Christ is his peculiar aim; he, of his goodness, make it ours also! – Christ’s Kingdom and The Magistrate’s Power, v8, p367-400

Arthur Pink explicou que a subserviência do ponto de vista das alianças:

Aquele “sistema único” ou o eterno “plano” de Deus foi estabelecido na aliança eterna e os “sistemas subordinados” são as distintas alianças que Deus fez com diferentes pessoas em diferentes tempos […] Tal como todas as promessas do Antigo Testamente se resumem em duas promessas principais (a vinda de Cristo [seu Reino] e o derramamento do Espírito), de igual modo, todas as alianças podem ser reduzidas especificamente a dois: Pacto de Obras e Pacto de Graça. Os outros pactos subordinados, são apenas confirmação ou sombras deles – Alianças Divinas

O reino comum dos homens, como explica Owen, é instrumental para o propósito de exaltação do reino espiritual de Cristo. A medida que o espiritual avança, o reino comum retorna ao seu papel fundamental de subserviência estabelecido no pós-lapso (na linguagem de Owen, é abatido):

The high and the green tree are the things of the most glorious appearance in the world, — persons and states that seem to be exceedingly suited for the work that God hath to do, that are in the greatest probability to be eminently instrumental in his hand: but, alas! says God, These will I pull down, and cause to wither. Perhaps you will think it strange, that a mighty monarchy, a triumphing prelacy, a thriving conformity, should all be brought down; but so it shall be, “Every mountain shall be made a plain.” – The Advantage of The Kingdom of Christ, v8, p315-339

O processo de moralização externa da cultura causa agitações no reino comum, mas Deus, pelo avanço do reino espiritual, move civilmente o mundo até que as constituições humanas atendam ao interesse do evangelho.

The “Desire of the nations,” is to be brought in by the “shaking of the nations.” They are to be civilly moved, that they may be spiritually established. Neither are they only to be shaken, but also to undergo great alterations in their shakings, Hebrews 12:27, […] Most nations in their civil constitution lie out of order for the bringing in of the interest of Christ; — they must be shaken up and new disposed of, that all obstacles may be taken away. The day of the gospel is not only terrible in its discovering light, and as it is a trying furnace, Malachi 3:2, but also in its devouring fury, as it is a consuming oven, chapter 4:1 – The Advantage of The Kingdom of Christ, v8, p315-339

John Owen afirma que o trabalho dos homens em seu próprio país deve ser fruto de gratidão pelo reino espiritual. Em outras palavras, a santificação contribui para a moralização externa do reino comum.

You will find work enough for your zeal to the kingdom of Christ at home; and this is the work of thankfulness which you are called unto – The Advantage of The Kingdom of Christ, v8, p315-339

O reino de Deus não avança com o engajamento cultural, mas o engajamento cultural é usado a serviço da causa de Jesus. Ele proporciona ambiente mais satisfatório aos cidadãos celestiais, que são chamado a proclamação verbal da mensagem evangélica.

…that you who rule over men may be just, ruling in the fear of the Lord, that you may be as the light of the morning when the sun is risen, even as a morning without clouds, as the tender grass springing out of the earth by clear shining after rain; — that we who are under rule may-sit under our vines and fig-trees, speaking well of the name of God, and laboring to carry on the kingdom of the Prince of Peace, even every one as we are called, and abiding therein with God; […] that the Lord engageth that judges, rulers, magistrates, and such like, shall put forth their power, and act clearly for the good, welfare, and prosperity of the church. […] Their power and substance, in protection and supportment, are to be engaged in the behalf thereof: hence God is said to give these judges, rulers, princes, kings, queens to the church; not setting them in the church, as officers thereof, but ordering their state in the world (Revelation 11:15) to its behoof. – Christ’s Kingdom and The Magistrate’s Power, v8, p367-400

Concluímos que não se deve confundir o reino comum dos homens com o reino de Deus nem ignorar a interseção entre eles. “Simul justus et peccator” e “simultaneamente cidadão do reino comum e espiritual” (não sei Latin  😛  ).

 

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