A real controvérsia entre Neocalvinismo e Teologia dos Dois Reinos

Não acredito que exista divergência entre neocalvinismo e teologia dos dois reinos quanto a dicotomia “sagrado-profano”. Ambos concordam que existam o sagrado e profano.  Prova-se isso de modo bem simples: Poderia um neocalvinista aceitar administração da Ceia do Senhor realizada por um “pai de santo”? Estou certo que não. Primeiro, isto fere o princípio regulador do culto. Segundo, é um gravíssimo pecado contra o Sacramento instituído pelo Senhor. O que é esta prática se não profanação da Mesa do Senhor?

A divergência também não diz respeito ao dever do envolvimento cultural. Ambos concordam que os crentes devem se envolver culturalmente. Ainda que exista distinção no pressuposto, ambos concordam que a igreja deve ser ativa culturalmente.

A questão que permanece, portanto, é escatológica e pactual. Neocalvinistas entendem que a escatologia do Pacto de Graça é idêntica a escatologia do Pacto de Obras. Por outro lado, na Teologia dos Dois Reinos, a escatologia do Pacto de Graça é superior a escatologia do Pacto de Obras.

O que Cristo obtém para seu povo é superior àquilo que Adão poderia ter obtido para a raça humana, pois, onde habitou o pecado, superabundou a graça. O Pacto de Graça não é uma cópia do Pacto de Obras. A Aliança da Graça tem natureza superior, promessas superiores e mediador superior. Salvação não é restauração da ordem criada. A salvação é a criação da ordem redimida que tem para si, de modo subserviente, a ordem criada!

Em outras palavras, o Pacto de Graça é superior ao Pacto de Obras. Se o primeiro Adão foi grandioso antes do pecado original, infinitamente mais grandioso foi o cabeça federal do Pacto de Graça, a saber, meu Senhor Jesus Cristo.

Romanos 5:14-21 Entretanto, reinou a morte desde Adão até Moisés, mesmo sobre aqueles que não pecaram à semelhança da transgressão de Adão, o qual prefigurava aquele que havia de vir. (15) Todavia, não é assim o dom gratuito como a ofensa; porque, se, pela ofensa de um só, morreram muitos, muito mais a graça de Deus e o dom pela graça de um só homem, Jesus Cristo, foram abundantes sobre muitos. (16) O dom, entretanto, não é como no caso em que somente um pecou; porque o julgamento derivou de uma só ofensa, para a condenação; mas a graça transcorre de muitas ofensas, para a justificação. (17) Se, pela ofensa de um e por meio de um só, reinou a morte, muito mais os que recebem a abundância da graça e o dom da justiça reinarão em vida por meio de um só, a saber, Jesus Cristo. (18) Pois assim como, por uma só ofensa, veio o juízo sobre todos os homens para condenação, assim também, por um só ato de justiça, veio a graça sobre todos os homens para a justificação que dá vida. (19) Porque, como, pela desobediência de um só homem, muitos se tornaram pecadores, assim também, por meio da obediência de um só, muitos se tornarão justos. (20) Sobreveio a lei para que avultasse a ofensa; mas onde abundou o pecado, superabundou a graça, (21) a fim de que, como o pecado reinou pela morte, assim também reinasse a graça pela justiça para a vida eterna, mediante Jesus Cristo, nosso Senhor.

1 Coríntios 15:45-49 Pois assim está escrito: O primeiro homem, Adão, foi feito alma vivente. O último Adão, porém, é espírito vivificante. (46) Mas não é primeiro o espiritual, e sim o natural; depois, o espiritual. (47) O primeiro homem, formado da terra, é terreno; o segundo homem é do céu. (48) Como foi o primeiro homem, o terreno, tais são também os demais homens terrenos; e, como é o homem celestial, tais também os celestiais. (49) E, assim como trouxemos a imagem do que é terreno, devemos trazer também a imagem do celestial.

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2 comentários sobre “A real controvérsia entre Neocalvinismo e Teologia dos Dois Reinos

  1. Concordo que ambos reconhecem uma distinção entre sagrado e profano, e que ambos reconhecem a importância do envolvimento cultural. Mas não entendi de que maneira os textos de Romanos e 1Coríntios comprovam a ideia de que o resultado final da obra de Jesus é qualitativamente diferente do que teria sido o resultado da obra de Adão caso ele fosse bem sucedido. Me parece que os textos apenas argumentam que ambos são representantes pactuais e que o resultado das suas respectivas obras é diferente pelo fato de o primeiro ter falhado e o segundo ter vencido. Nesse aspecto, o pacto da graça é obviamente superior. Como disse em uma conversa anterior, reconheço que há diferença no sentido de que em Cristo há uma manifestação de graça, perdão, misericórdia e redenção que obviamente não haveria no caso do primeiro Adão – mas não necessariamente quanto ao resultado final.

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    • Olá Daniel,

      Antes de tentar respondê-lo quero deixar claro que não defendo a aniquilação da ordem criada, creio apenas que existem duas ordens, redimida e criada. Elas não se confundem, sendo a criada subserviente a redimida. Ou seja, não acredito em duas realidades ontológicas, mas duas administrações da realidade. Também não acredito que a ordem criada será restaurada conforme os padrões Edênicos. Acredito que existem novos padrões escatológicos tanto para a ordem criada quanto para o Reino do Céu. Posto isto,

      Você diz: “ambos são representantes pactuais e que o resultado das suas respectivas obras é diferente pelo fato de o primeiro ter falhado e o segundo ter vencido.”

      Sem dúvida alguma, Adão falhou; Cristo venceu. Concordamos neste ponto, entretanto, esta não é a única diferença substancial – que por si só já é suficiente prova de uma escatologia (resultado final) distinta entre os pactos. Vejamos:

      1: O Pacto de Graça, se manifesta no tempo e espaço após o Pacto de Obras, porém, o Pacto de Graça é eterno, o de Obras não. O Pacto de Graça não teve início após a queda do primeiro Adão. Neste ponto ressalta-se a ideia supralapsariana que fortalece o argumento da eternidade do Pacto de Graça. John Bunyan explica do seguinte modo:
      “Assim como o segundo Adão foi primeiro que o primeiro Adão, o Novo Pacto existiu antes do Antigo Pacto.” – Law and Grace p.96

      2: Adão, homem, é mediador da aliança. Cristo, Deus-homem, é mediador da aliança. Isso significa que a justiça do segundo é mais excelente porque tem a dignidade divina anexada/unida a ela. A vida redentiva, portanto, contém elementos que nunca poderiam ser encontrados na justiça de Adão. Isso, por si só, já indica uma ordem distinta da criação original.

      3: A ordem criada estará perante homens que necessitam da mediação eterna do Cristo encarnado. Este é outro elemento que Adão não tinha e a criação não provou no Éden. Os redimidos devem refletir a imagem do Deus-encarnado. A imagem agora contém um elemento que era desconhecido da ordem criada, a mediação de Cristo. Note que não estou afirmando que é uma imagem distinta, porém, mais reveladora. Cristo não é o mediador de anjos, animais, plantas[…] Essa ordem criada, portanto, recebe elemento que era desconhecido para que se relacione com o homem. Em outras palavras, a relação que Adão tinha com Deus era, em certos aspectos, distinta da nossa relação redimida com Ele. Não há somente uma restauração da comunhão, mas um elemento novo nessa comunhão redimida, a saber, a mediação de Jesus. A criação, portanto, não pode se relacionar com o homem redimido da mesma forma que se relacionaria com os filhos de Adão se não houvesse o pecado.

      4: Se a “alma vivente” era um tipo para o “espírito vivificante”, logo, a relação entre a “alma vivente” e o Pai era um tipo para a relação entre o “espírito vivificante” e o Pai. Desse modo, o pacto de obras era um tipo para o pacto de graça. O tipo é substancialmente distinto e inferior ao antítipo, portanto, as promessas do tipo eram substancialmente distintas e inferiores ao antítipo. O resultado final do tipo não pode ser o mesmo que o antítipo, caso contrário, o sacrifício de animais teria mesma eficácia do sacrifício do Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo.

      5: O reino escatológico de Adão era puramente terreno. O reino de Cristo é Celestial e existirá, tendo o reino terreno, subserviente a ele.

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